terça-feira, 24 de novembro de 2009

Gosto de pessoas que reagem como se ninguém as estivesse a observar.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Podemos ficar sentados a noite inteira
à espera de um sinal que nunca chega,
podemos num desespero sem nome perder
o gosto de tudo, enquanto o eu permanece
brilhante, estupidamente brilhante,
a sussurrar-nos ao ouvido a desgraça;
podemos, numa lufa-lufa, ir de filme
em filme, de livro em livro, como quem
sem terra procura uma casa, um lugar
a que possa chamar seu, onde tenha os seus
pertences e tempo para rir e tempo para
se aborrecer. Podemos ter pena de nós próprios,
podemos viver.
Carlos Bessa

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar. A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo,é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.
Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito. A porta da rua é um lugar onde só se sai,a nossa família é uma fotografia pendurada na parede e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.
Todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez, quando ainda éramos todos uns dos outros. Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene daqueles que vestem camisas com emoção e significado enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer. ~
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão.
Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.

Luís Filipe Cristóvão

quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Se ao menos eu soubesse que este sangue, este meu sangue que carreguei até aqui e que agora se derrama, não me roubaria as minhas histórias – se ao menos eu soubesse -, poderia tentar por uma só vez que fosse ser feliz. Talvez pudesse – vocês sabem – aspirar à minha eternidade. Serenamente - penso. Leva-me em rasto lento e cadente os dias, tudo o que agora de mim sai. Mas poderia, meu Deus, não ser tão lenta esta morte que me urde?Que o que se rasga num determinado momento, jamais se volta a unir. Apenas fica. Desfeito – mastigo – para ser esquecido.E continuo aqui; olho para o meu corpo, jogo de pescoço, pernas, braços, mãos e dedos que desfiaram com destreza, mas já não o reconheço de ser encarnado noutro tempo. Pequena rapariga de sonhos gigantes - caramelos que se saracoteavam delicadamente, envoltos num manto de saliva, apenas e só, abrigo de boca desejosa de vida a conhecer. Neste tempo, este que não meço, cada dia desvela uma romaria dolorosa sem lei nem passo certo, e descobre outros dias ancorados, já sem nome ou forma, no pó de um canto recôndito qualquer que não sei saber visitar. E, é assim que os sinto. Escorridos das entranhas.Noutro esgar, não mais sóbrio mas que me atrevo enquadrar, vem até mim a criança que esfolava os joelhos nas calçadas de pedras brancas e polidas, que um sol de Agosto lambia avidamente. Não me sinto cheia, não me concebo e por este solene engano de mim, devo estar a esvair-me.Que o que se rasga num determinado momento, jamais se volta a unir. Afligem-se os cheiros desses dias, dias roubados a uma morte de cristal frágil e silenciosa de sentidos. Estremeço. A minha menina – sussurrava a minha mãe. Mãe - aceno perpétuo deste meu Deus impressão de luz. Por aqui fico à espera. De um prolongamento. De uma corda que se estique. Fico. À espera que numa hora súbita pendurada dos céus, se esgueire a ilusão de cor em ondas vítreas, e que pouco a pouco, a vontade de resgatar a vida, descubra se teriam sabor as lágrimas daqueles que me amavam quando se me chegou a hora de partir. Nunca morri. Apenas cresci. Mas não digam a ninguém porque é segredo e, os segredos são como rios de sombras numa tela perdida de uma parede num lugar qualquer. E lá, lá ninguém mos rouba. Lá... são todos meus.
por Lourenzo Monsanto

quinta-feira, 22 de outubro de 2009



livro apaixonante
"O deus das pequenas coisas"
- Arundhati Roy -

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